29 de nov de 2010

Ophelia e Zeitgeist

Fazendo uma pesquisa de tendências no Tumbrl, um site de imagens utilizado por jovens do mundo do todo, fiquei impressionada com a quantidade de fotos e desenhos melancólicos e escapistas. Entre uma foto ou outra, a imagem de Ophelia, de Shakespeare estava sempre presente. Em uma busca no Google a imagem surge em milhares de locais. Em moda, chamamos o Espírito do Tempo de Zeitgeist e é isso que  demonstra essa identificação de garotas do mundo todo por Ophelia.
Ophelia, no contexto literário de William Shakespeare, nos proporciona uma complexidade das realidades humanas e é um mergulho no significar.  Mais Dionísico que apolíneo, flerta com a cultura pagã e deixa a interpretação de todo o conteúdo simbólico para o leitor.  Escrita entre 1585 e 1601,  a  peça é a mais famosa e com uma qualidade de atemporalidade que quase nos permite transportá-la para os dias de hoje e analisá-la. 
Hamlet é um príncipe atormentado pelo desejo de vingar a morte do pai.  Ophelia é utilizada como ferramenta política por ele, pois ela é filha de Polônio, suspeito de ser o assassino. Hamlet a deseja mas não confia nela, pois transfere a desconfiança despertada por sua mãe, Rainha Gertrudes, que não espera o tempo de luto e se casa com o pai de Ophelia. Esta deseja Hamlet mas não consegue saber o que realmente quer, já que é manipulada pelo pai e pelo irmão. Ao ver que Hamlet enlouquece, sente-se culpada e enlouquece também. A cena de sua morte, descrita por Gertrudes, é uma das mais belas passagens da literatura:


Onde um salgueiro cresce sobre o arroio, E espelha as flores cor de cinza na água; Ali, com suas líricas grinaldas De urtigas, margaridas e rinúnculos,
E as longas flores de purpúrea cor A que os pastores dão um nome obsceno E as virgens chamam de "dedos de defunto", Subindo aos galhos para pendurar Essas coroas vegetais nos ramos, Pérfido, um galho se partiu de súbito, Fazendo-a despencar-se e às suas flores Dentro do riacho. Suas longas vestes Se abriram, flutuando sobre as águas; Como sereia assim ficou, cantando Velhas canções, apenas uns segundos, Inconsciente da própria desventura, Ou como um ser nascido e acostumado Nesse elemento; mas durou bem pouco Até que as suas vestes encharcadas A levassem, envolta em melodias, A sufocar no lodo. (Hamlet, Shakespeare-p.145)

          
A imagem de Ophelia se afogando entre salgueiros é um ícone romântico e escapista, reeditado no fim do século XIX pelos pré-rafaelitas. Shakespeare inaugura o indivíduo moderno com Hamlet. Do indivíduo grego e sua essência, do indivíduo cristão que deve se sacrificar em nome de algo. Com o cristianismo há a alma. E tendo alma, há tormento.
A condição de saber que não somos livres e de não termos poder de escolha, nos enlouquece à medida que percebemos isso. A moda é um elemento que nos conduz a pensar como sujeitos em unidade de si e unidade de grupo. Ophelia enlouquece pois é difícil conciliar as duas coisas. A solidão de Ofélia encontra sua natureza selvagem, na água. Como se estivesse se colocando em solidão intencional, Aloneness, ou seja, inteiramente em si.
O inteiramente em si é um fenômeno moderno. O sujeito e a consciência de si é conseqüência da socialização e para que eu exista, preciso do outro. Jung diz que “o si mesmo representa o objetivo do homem inteiro e a realização de sua individualidade. E a dinâmica desse processo é o instintivo”. 
O instinto de Ophelia falhou ao permitir que fosse conduzida por outros. E essa condução leva ao desejo de aprovação da identidade. Não sou nada se ninguém me reconhecer.
A morte de Ophelia é uma forma confinamento. Para Foucault, a era moderna foi marcada pela necessidade de vigiar, punir e confinar. A loucura é inadmissível nas novas formações urbanas. E as mulheres foram cada vez mais confinadas em um âmbito doméstico. Deleuze vê que na pós-modernidade, o controle químico submete o corpo a uma dominação. Somos domesticados pela quantidade absurda de imagens e informações que vemos confortavelmente em nossas casas . Hoje as mesmas garotas que se identificam com Ophelia estão confinadas em frente aos seus computadores, trancadas em seus quartos. Ninguém mais precisa vigiar. O confinamento agora é por conta própria. Sociedade de controle.
A água onde Ophelia acaba confinada representa a mudança de humor. E sexo. É um elemento  feminino, Dionisíaco e misterioso. A relação do pós-modernismo com a água e humor está ainda no controle químico. As imagens do Tumbrl são niilistas, escapistas, melancólicas ou então completamente coloridas, eufóricas e otimistas em relação ao amor. São imagens bipolares. Para Damásio, o corpo é responsável pela dor que é assimilada pelo Cérebro. Sem corpo não teríamos dor. É a adrenalina ou a serotonina que o Cérebro libera após as experiências que causam um impacto no corpo. E é o corpo que sente. O Cérebro apenas memoriza o processo. A dor e o trauma são esquecidos se logo após a experiência você for anestesiado, seja por álcool, drogas ou fluoxitina. 
Ophelia é vitima da incapacidade de esquecer de Hamlet, um sujeito ressentido. A.C. Bradley diz que “a causa direta da irresolução de Hamlet é um estado de espírito anormal e num estado de profunda melancolia”.  É preciso esquecer mas forçar o esquecimento é dominação. A tragédia, sob uma abordagem moderna, pode ser vista para um mundo que não se pode viver ou passar sem elas, segundo Harold Bloom. Mas hoje não queremos e não agüentamos mais sofrer.  Então essas garotas e mulheres, que se identificam são Ophelias niilistas, esperando que um dia sejam felizes ou então esperando que a morte lhes traga felicidade.
Hoje, ainda que as mulheres estejam chegando ao poder, conquistando altos cargos em empresas ou que sejam donas de seu nariz, ainda é a busca de ser reconhecida em um mundo de homens baseado na lógica que as movem. Isso é preocupante ao perceber que a melancolia, escapismo e niilismo são reforçados pelo mass media. As garotas que não são reconhecidas pelos padrões de beleza ou de comportamento estão perdendo a si mesmas de vista em processos de distúrbios alimentares, plásticas e dietas que nunca acabam. Não temos como escapar do capitalismo, mas ele forma essas subjetividades achatadas. As mulheres precisam aprender a sofrer e a desejar o sofrimento, confiar na intuição e buscar tudo de si em busca da liberdade para escapar da dominação.